segunda-feira, 11 de maio de 2009

CONTRATO INÉDITO!

Um mês após o lançamento de Herança Maldita, seu 34.º romance, Ryoki Inoue assinou, na semana passada, um contrato de exclusividade de três anos com a Editora Carthago & Forte, de São Paulo. Pelo acordo, toda a sua produção intelectual – livros, roteiros, novelas, crônicas etc. – passa a ser administrada pela Carthago, fundada há um ano e que já publicou 22 títulos, entre romances e livros técnicos.

“É um contrato inédito em termos de Brasil”, diz o escritor. “Iguais a esse, só nos Estados Unidos ou Alemanha.” Ryoki não revela cifras, mas assegura que o acordo “é de nível internacional e satisfaz ambas as partes muito bem, sem nenhuma cláusula leonina”. Não há um número predeterminado de livros. Apenas o compromisso de escrever. E muito.

Segundo Ryoki, ele escolheu a Carthago “por ser uma editora nova e com muita vontade política para fazer coisas boas”. Depois de dois meses de muita conversa e viagens entre Piúma (ES), onde mora, e São Paulo, ele conseguiu “uma relação de amizade muito forte e muito importante”. Apesar de ter seu passe adquirido pela editora, ele tem cinco livros para ser lançados nos próximos meses, por força de acordos anteriores. A Editora Olho D’Água lançará, em agosto, O Caminho das Pedras, um manual para aspirantes a escritor, em que ele conta “os truques do ofício”.

Pela Hemus, sairão, até o final de julho, Do Mago ao Louco, O Iluminado, O Cristal e A Roda da Fortuna. Mas o nosso rei dos livros não pára: está desenhando novas produções, no estilo best-seller. “Será uma série, com o mesmo tema ou personagem”, adianta o prolífico autor.

Além dos livros, ele vendeu um roteiro de cinema, Mamma Rádio, para Renato Bulcão, professor da ECA-USP. “O filme deverá começar a ser produzido no segundo semestre. É sobre uma família de caminhoneiros dirigida por uma matrona, que controla a frota por rádio”, conta Ryoki. Outro projeto, “para sair dentro de uns cinco anos”, é o semi-autobiográfico Estetoscópio, no qual retrata o mundo da medicina, profissão que exerceu por 16 anos, de 1970 a 1986.

Ryoki tem consciência de pertencer a uma categoria rara: “É uma superelite. Dá para contar nos dedos quem vive somente de literatura hoje no Brasil.” Para ele, “o maior problema do escritor profissional é não ter agente literário, uma classe que não existe no País. É péssimo em todos os sentidos”.

Sobre a atual produção literária brasileira, ele acha que “realmente há muita coisa boa, novos autores, mas o mercado livreiro tem muito medo de investir em nomes inéditos”. Segundo Ryoki, “é muito mais barato comprar um best-seller na Feira de Frankfurt, com retorno garantido, do que patrocinar um autor nacional desconhecido”, sentencia.

Silvio Atanes
Folha da Tarde
Domingo, 30 de abril de 1995

HERANÇA MALDITA - Livro Original

Herança Maldita é o típico livro para ser lido de uma tacada só. É daqueles que não deixam o leitor ir ao banheiro. Resultado de uma boa engenharia literária, o livro é muito bem escrito. Afinal, coisa rara hoje em dia, Ryoki Inoue domina muito bem a língua portuguesa. Se, em suas páginas, nunca encontramos ecos de grande literatura, por outro lado, descobrimos o prazer de ler frases bem construídas e verbos muito bem conjugados.

A trama é exemplarmente armada e costurada. Beatriz, herdeira de um império econômico, se vê às voltas com a ganância dos diretores de suas empresas, ao mesmo tempo que enfrenta forças sobrenaturais ao tentar reformar a sede de uma antiga fazenda. Desesperada por causa das dificuldades que enfrenta e assustada com fenômenos sem explicações lógicas, ela pede ajuda a um ex-namorado francês e descobre o quanto as pessoas podem fazer por dinheiro e poder. Tudo com muito “molho” e uma boa história de amor.

A história é toda permeada por um misticismo light, com pais-de-santo, ciganas e videntes, cheia de mensagens do além e premonições. O romance se passa no Brasil, Estados Unidos e França. Como um bom quebra-cabeça, nenhuma peça fica solta. Além de um bom escritor, Ryoki Inoue é um bom pesquisador. Descreve com muita habilidade detalhes de rituais de candomblé, sem ser iniciado na religião. E faz isso com todo o respeito.

“Estudei bastante, pedi permissão e freqüentei tendas de candomblé, para não falar bobagem”, conta. Ele também desenha minuciosamente os perfis psicológicos dos personagens, dedicando uma boa parte do livro a cada um dos quatro protagonistas: Beatriz, Pierre, Pedreira e Laura. A rapidez com que Ryoki escreve não transparece durante a leitura. Tudo é muito bem arquitetado, com começo, meio e fim.

Ao leitor em potencial, um conselho do repórter: não comece a ler à noite, principalmente se tiver um compromisso na manhã seguinte. Senão, será muito fácil varar a madrugada com o livro nas mãos.

HERANÇA MALDITA
De Ryoki Inoue, Editora Carthago & Forte, São Paulo
303 páginas

Silvio Atanes
Folha da Tarde
Domingo, 30 de abril de 1995